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França: A Guerra Civil Está Chegando


Por Yves Mamou  •  19 de Julho de 2016
  • Para o presidente francês François Hollande o inimigo é uma abstração: “terrorismo” ou então “fanáticos”.
  • O presidente francês opta por reafirmar sua determinação a favor de ações militares no exterior: “iremos reforçar nossas ações na Síria e no Iraque,” ressaltou o presidente após o ataque em Nice.
  • Confrontados com esse fracasso
    da nossa elite — que foi eleita para capitanear o país pelos perigos
    nacionais e internacionais — causaria alguma surpresa se grupos
    paramilitares estiverem se organizando para retaliar?
  • Na França, foram as elites
    globais que fizeram a escolha. Eles decidiram que os “maus” eleitores da
    França eram pessoas desatinadas, idiotas demais, para enxergarem a
    beleza de uma sociedade aberta para aqueles que muitas vezes não querem
    se assimilar, que querem que você seja assimilado por eles e que
    ameaçam matá-lo se você discordar. A elite se alinhou contra os próprios
    idosos e pobres do país porque eles não quiseram mais votar neles. A
    elite também optou por não combater o islamismo, porque os muçulmanos
    votam coletivamente na elite global.

    A polícia francesa matou um terrorista islamista natural da Tunísia, que
    matou 84 pessoas em Nice, França em 14 de julho de 2016. (Imagem:
    captura de tela da Sky News)

    “Estamos à beira de uma guerra civil”. Essa afirmação não foi feita por um fanático ou lunático. Não, ela foi feita por Patrick Calvar, Chefe do Departamento de Segurança Nacional França, DGSI (Direction générale de la sécurité intérieure).
    Na realidade ele já tinha se referido, por diversas vezes, sobre o
    risco de guerra civil. Em 12 de julho ele fez o alerta à Comissão dos
    Membros do Parlamento, responsável por um levantamento em relação aos
    ataques terroristas de 2015.
    Em
    maio de 2016, ele enviou uma mensagem bem parecida a uma outra comissão
    de membros do parlamento, desta vez encarregada da defesa nacional. A
    “Europa”, realçou ele, “corre perigo. O extremismo cresce em todos os
    cantos e agora nós estamos voltando a nossa atenção para alguns
    movimentos de extrema-direita que estão se preparando para um
    confronto”.



    Que
    tipo de confrontação? “Confrontos entre comunidades”, ressaltou ele
    eufemismo para “guerra contra os muçulmanos”. “Mais um ou dois ataques
    terroristas”, acrescenta ele “e poderemos nos ver diante de uma guerra
    civil”.
    Em fevereiro de 2016, diante da Comissão do Senado
    responsável pelas informações da inteligência, ele voltou a afirmar:
    “nós estamos dirigindo nossos olhares para a extrema-direita que está
    apenas esperando que aconteçam mais ataques terroristas para lançarem
    mão de confrontos violentos”.
    Ninguém
    sabe se o terrorista que lançou o caminhão em cima da multidão no Dia
    da Bastilha em 14 de julho em Nice matando mais de 80 pessoas irá
    precipitar uma guerra civil na França, mas poderá ajudar a identificar o
    que irá gerar esse risco na França e em outros países como a Alemanha
    ou a Suécia.
    A principal razão é o fracasso do estado.
    1. A França Está em Guerra, Mas Nunca se Menciona o Nome do Inimigo.
    A
    França é o principal alvo de recorrentes ataques islamistas os banhos
    de sangue que mais ficaram em evidência ocorreram na redação da revista
    Charlie Hebdo e no supermercado Hypercacher de Vincennes (2015) na sala
    de espetáculos Bataclan, nos restaurantes próximos e no Estádio Stade de
    France (2015) no ataque frustrado contra o trem Thalys na decapitação
    de Hervé Cornara (2015) no assassinato de dois policiais em Magnanville
    em junho (2016) e agora no atropelamento do caminhão em Nice no dia do
    festejo da Revolução francesa de 1789.
    A
    maioria desses ataques foram cometidos por muçulmanos franceses:
    cidadãos voltando da Síria (os irmãos Kouachi contra o Charlie Hebdo) ou
    por islamitas franceses (Larossi Abballa que matou a família de um
    policial em Magnanville em junho de 2016), que mais tarde assumiu sua
    lealdade ao Estado Islâmico (ISIS). O assassino do caminhão em Nice era
    tunisiano, casado com uma francesa com a qual teve três filhos, viviam
    tranquilamente em Nice até que ele resolveu matar mais de 80 pessoas e
    ferir dezenas mais.
    Após
    cada um desses trágicos episódios o Presidente François Hollande se
    recusa a dizer quem é o inimigo, se recusa a dizer islamismo e
    principalmente se recusa em citar os islamistas franceses como inimigos
    dos cidadãos franceses.
    Para
    Hollande o inimigo é uma abstração: “terrorismo” ou então “fanáticos”.
    Mesmo quando o presidente já ousa apontar o inimigo como sendo o
    “islamismo”, ele se recusa a dizer que irá fechar todas as mesquitas
    salafistas, proibir na França a Irmandade Muçulmana e organizações
    salafistas ou proibir que as mulheres usem véus nas ruas ou nas
    universidades. Não, o presidente francês opta por reafirmar sua
    determinação a favor de ações militares no exterior: “iremos reforçar
    nossas ações na Síria e no Iraque,” ressaltou o presidente após o ataque
    em Nice.
    Para o
    presidente francês, o posicionamento de soldados no próprio país deve
    ser empregado apenas em casos de operações defensivas: política de
    contenção, não o rearmamento ofensivo da república contra um inimigo
    interno.
    Confrontados com
    esse fracasso da nossa elite que foi eleita para capitanear o país
    pelos perigos nacionais e internacionais causaria alguma surpresa se
    grupos paramilitares estiverem se organizando para retaliar?
    Conforme salienta Mathieu Bock-Côté, sociólogo da França e do Canadá, no jornal Le Figaro:
    “As
    elites ocidentais, com uma obstinação suicida, opõem-se em identificar o
    inimigo. Confrontadas com ataques em Bruxelas ou Paris, elas preferem
    imaginar uma luta filosófica entre a democracia e o terrorismo, entre
    uma sociedade aberta e o fanatismo, entre a civilização e a barbárie”.
    2. A Guerra Civil Já Começou e Ninguém Quer Dar um Nome a Ela.
    A
    guerra civil começou há dezesseis anos, com a Segunda Intifada.
    Enquanto os palestinos levavam a efeito ataques suicidas em Tel-aviv e
    Jerusalém, os muçulmanos franceses começavam a aterrorizar os judeus que
    viviam pacificamente na França. Durante dezesseis anos, os judeus na
    França foram massacrados, atacados, torturados e esfaqueados por
    cidadãos franceses muçulmanos, teoricamente para vingar os palestinos da
    Cisjordânia.
    Quando um
    grupo de cidadãos franceses, que são muçulmanos, declara guerra a outro
    grupo de cidadãos franceses que são judeus, que nome se dá a isso? Para o
    establishment francês, não se trata de guerra civil, é apenas um
    lamentável mal-entendido entre duas comunidades “étnicas”.
    Até
    agora ninguém queria estabelecer uma ligação entre estes ataques e o
    ataque assassino em Nice contra pessoas que não eram necessariamente
    judias e chamá-lo como deveria ser chamado: guerra civil.
    Para
    o establishment francês, politicamente correto ao extremo, o perigo de
    uma guerra civil somente se concretizará se houver retaliação contra
    muçulmanos franceses se todos apenas cederem às suas exigências tudo
    estará bem. Até agora ninguém pensou que os ataques terroristas contra
    os judeus cometidos por muçulmanos franceses contra os jornalistas do
    Charlie Hebdo por muçulmanos franceses contra um empresário que foi
    decapitado há um ano por um muçulmano francês contra o jovem Ilan Halimi
    por um grupo de muçulmanos contra escolares menores de idade em
    Toulouse por um muçulmano francês contra os passageiros do trem Thalys
    por um muçulmano francês, contra pessoas inocentes em Nice por um
    francês praticamente muçulmano fossem sintomas de uma guerra civil.
    Estes banhos de sangue continuam a ser vistos, até hoje, como algo
    parecido com um trágico mal-entendido.
    3. O Establishment Francês Considera os Pobres, os Idosos e os Desiludidos o Inimigo
    Na
    França, quem reclama mais da imigração muçulmana? Quem mais sofre com o
    islamismo local? Quem gosta mais de beber uma taça de vinho ou comer um
    sanduíche de manteiga com presunto? Os pobres e os idosos que vivem
    perto das comunidades muçulmanas, porque não têm dinheiro para se
    mudarem para outro lugar.
    Hoje,
    como resultado, milhões de pobres e idosos na França estão dispostos a
    elegerem Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional (partido de
    direita), como próxima presidente da República, pela simples razão da
    Frente Nacional ser o único partido determinado a combater a imigração
    ilegal.
    Visto que os
    franceses idosos e pobres estão dispostos a votar na Frente Nacional,
    eles se tornaram o inimigo do establishment francês, tanto da direita
    quanto da esquerda. O que a Frente Nacional está dizendo a essas
    pessoas? “Vamos restaurar a França como nação dos franceses”. E os
    pobres e idosos acreditam porque eles não têm escolha.
    Na
    mesma linha, os pobres e idosos na Grã-Bretanha não tiveram outra
    escolha senão a de votarem a favor do Brexit. Eles fizeram uso do
    primeiro instrumento que lhes foi fornecido para expressarem seu
    descontentamento de viver em uma sociedade que não apreciam mais. Eles
    não votaram com o intuito de dizer: “matem esses muçulmanos que estão
    transformando o meu país, roubando o meu emprego e absorvendo meus
    impostos”. Eles somente estavam protestando contra uma sociedade que uma
    elite global tinha começado a transformar sem o seu consentimento.
    Na
    França, foram as elites globais que fizeram a escolha. Eles decidiram
    que os “maus” eleitores da França eram pessoas desatinadas, idiotas
    demais, racistas demais para enxergarem a beleza de uma sociedade aberta
    para aqueles que muitas vezes não querem se assimilar, que querem que
    você seja assimilado por eles e que ameaçam matá-lo se você discordar.
    As
    elites globais fizeram outra escolha: se posicionaram contra os
    próprios idosos e pobres do país porque eles não quiseram mais votar
    neles. As elites globais também optaram por não combater o islamismo,
    porque os muçulmanos votam globalmente na elite global. Os muçulmanos na
    Europa também oferecem uma grande “recompensa” para a elite global:
    votam coletivamente.
    Na
    França, 93% dos muçulmanos votaram no atual presidente, François
    Hollande em 2012. Na Suécia, os sociais-democratas afirmaram que 75% dos
    muçulmanos suecos votaram neles na eleição geral de 2006 estudos
    mostram que o bloco “vermelho-verde” conquista de 80 a 90% dos votos
    muçulmanos.
    4. A Guerra Civil é Inevitável? É!
    Se
    o establishment não quer enxergar que a guerra civil foi declarada
    primeiro pelo extremistas muçulmanos se o establishment não quer
    enxergar que o inimigo na França não é a Frente Nacional, a AfD na
    Alemanha ou os Democratas Suecos e sim o islamismo na França, Bélgica,
    Grã-Bretanha e Suécia então haverá sim uma guerra civil.
    Tanto
    a França quanto a Alemanha e a Suécia, dispõem de militares e policiais
    fortes o suficiente para combaterem o inimigo islamista interno. Mas
    primeiro eles têm que apresentar o nome do inimigo e tomar medidas
    contra ele. Caso contrário se deixarem os cidadãos autóctones aflitos,
    sem opção a não ser se armarem e retaliarem sim, a guerra civil é
    inevitável.

    Yves Mamou, radicado na França, trabalhou por duas décadas como jornalista para o Le Monde.  Original em inglês:  France: The Coming Civil War, Tradução: Joseph Skilnik

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