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Conheça a Geração Z: a geração Merthiolate-que-não-arde, que não tem mais o que fazer

 
Não é mais pelos 20 centavos: a Revolta do
Shortinho mostra que a Geração Z chegou pra ficar: e sem um emprego pra
pagar as próprias contas. 
Nosso amigo Guy Franco já escreveu que o mundo está perigosamente no processo de transformação em uma esquete de Monty Python.
Analisando as notícias recentes do Brasil, percebemos uma ameaça ainda
mais fatal: estamos nos transformando numa reprise infinita das cenas de
Malhação.



A crise de saúde no Rio de Janeiro, com
hospitais em greve e sem medicamentos necessários para combate ao
câncer, chegou à educação, com escolas caindo aos pedaços sem merenda
(foi cogitado um dia de merenda fria). Tudo sob gestão do governador
peemedebista mais alinhado ao governo federal (e mais
aferrado especificamente a Dilma Rousseff): Luiz Fernando Pezão. No mesmo dia, foi revelada pesquisa mostrando que apenas 8% dos brasileiros dominam os fundamentos do Português e Matemática.



A notícia que mais teve respaldo e gerou memes e discussões nas redes sociais (e, portanto,
nos portais de notícia) a respeito da educação brasileira nesta semana:
alunas do colégio Anchieta, um dos mais antigos (e caros) de Porto
Alegre, fizeram uma mobilização, com ato, demonstração e petição online,
pelo direito de usar shortinho quando forem para as aulas.
O colégio é gerido pela Igreja. Os pais
de alunos (e os alunos que desejam ter aquela educação) assinam um
contrato que prevê as normas de conduta do colégio. Todas as salas de
aula possuem ar condicionado. Não mais que de repente, as alunas se
revoltam com o código de vestimenta sugerido por 99 em cada 100 escolas e
exigem um passe livre para se vestirem “como quiserem”. Dez meninos
também aderiram à campanha, e fizeram também um ato de shortinho em
apoio às meninas de shortinho, o que foi fato sobejante para nova notícia. Seu
argumento era de que “Isso mostra que por trás de toda questão do
shorts tem muitas outras, como a luta pela igualdade de gênero e os
direitos das pessoas, em usar o que bem entenderem”. Não foram vistos
meninos usando fio-dental no cofrinho em apoio às meninas, mas talvez
não se deva esperar que isto não aconteça.
As moças das pernocas de fora ganharam o noticiário nacional. A merenda às vezes é comentada en passant. O resultado pífio em Português e Matemática, praticamente nunca.
O evento das pernas, chamado de “Vai ter shortinho, sim”, disfarça pouco em sua página o seu viés político. O Canal da Direita
mostrou que a principal articuladora do grupo faz parte do Juntos!, o
“coletivo” de atuação pré-adolescente do PSOL, e atuou com afinco na
campanha de Luciana Genro. Por que isto não surpreende ninguém, e por
que há a necessidade de sempre haver um partido socialista em qualquer
algazarra e ziriguidum por mero prazer neste país?
O linguajar do evento é de um pobrismo
repapagaiador de todos os clichês que possam caber em um cartaz e num
par de pernas juvenis. Fala-se, obviamente, em “machismo”, em “respeito”
a roupas (um conceito difícil de ser trabalhado pela metafísica
ocidental), em não culpar as mulheres por estupros, em dizer que se
alguém deseja as pernas de uma mulher, é um pensamento “machista”.



Já analisamos como estes pensamentos prontos são pré-lingüísticos,
símbolos de obediência imediata no falar corrente de uma época (se a
palavra “machismo” assusta, basta-se pensar em “nazismo”, “câncer” ou
“ditadura”, ou em palavras que já tiveram peso semelhante no passado,
como “comunismo”, “AIDS” ou “lepra”).



Se a moda suprema, a forte corrente a levar a multidão irracionalmente hoje é o feminismo,
apenas a ideia de associar algo a feminismo gera adesão imediata e
pré-consciente, tal como associar qualquer coisa a machismo torna aquilo
tão execrável que qualquer forma de repúdio, a mais revolucionária,
irrefletida, violenta ou desequilibrada se torna válida, justa e
desejável – os argumentos virão a posteriori.
 

https://www.facebook.com/marcela.jardine/posts/993833174037930

É este hoje o grande dilema do Ocidente:
não mais enfrentar o Exército Vermelho e seus estupros, não ser um dos
povos europeus ou americanos a enfrentar o nazismo mesmo não sendo
judeus, não enfrentar fome, frio terrível, derrubar lenha, caçar o
próprio alimento, enfrentar bárbaros e bandoleiros.



Somos já uma civilização assentada – tão
assentada e tão opulenta com a produção de riqueza capitalista para as
massas que já ignoramos os fundamentos dessa própria civilização. Cremos
que tudo o que é civilizacional é natural – a geladeira, o alimento
pronto, o ar condicionado, os prédios, a internet, a polícia e as
viagens transcontinentais.



Somos o que Ortega y Gasset, no indispensável A Rebelião das Massas, chama de homem-massa: homens divorciados de alguma noção de continuidade histórica que, independentemente de sua “classe” social,
acreditam que um computador ou um carro são objetos da natureza que
surgem das árvores, e seu grande heroísmo é apenas exigi-los de alguém.



O homem-massa é, por definição, um ser
urbano, das cidades cheias, apinhadas. É nelas em que a civilização
atinge seu zênite: há não apenas casas e prédios, mas shoppings, museus,
escolas, policiais e toda uma infra-estrutura desenhada por outros
homens para satisfazer e deleitar seus moradores – o que Olivier Mongin
já tão bem definiu em seu ensaio A Condição Urbana.
Sem nenhuma aventura violenta cotidiana,
exigindo ritos de passagem e valores como virilidade e força física a
separar futuros sobreviventes das presas fáceis do ambiente, resta ao
homem-massa, que pode ser um sindicalista ou um médico, um intelectual doutor ou meninas adolescentes de shortinho, apenas sair exigindo “direitos” e vociferando slogans feitos para
serem repetidos roboticamente em massa (anteriormente de megafones,
hoje de blogs, páginas de Facebook e coletivos do PSOL).
Mesmo um pobre urbano hoje desfruta de
luxos, confortos e estofamentos da civilização que um rei ou nobre de
poucos séculos atrás não poderia nem imaginar (estude-se a história das
privadas).



Para disfarçar este comodismo, o herói adolescente e o intelectual de 140 caracteres fazem analogias,
considerando que o uniforme do colégio é o equivalente aos porões da
ditadura, que fazer uma página na internet e receber xingamentos é
equiparável a enfrentar as tropas nazistas, que segurar um cartaz e
“exigir seus direitos” de usar uma roupa curta para paquerar os meninos
num colégio caríssimo é o mesmo que vencer o Estado Islâmico.



E, rapidamente, passam a crer que
a analogia não é mais analogia, mas que existem mesmo ditadores,
nazistas e terroristas ao nosso redor, e estes carrascos é que impedem
nosso hedonismo adolescente. Pergunte à Márcia Tiburi.



Esta é a tal “geração Z”, de que falou
recentemente a revista Veja em sua capa: uma geração que não tem mais o
que fazer. Não tem contra o que lutar. Não lhes falta nada em suas
economias. Não são sequer feios, pobres ou “oprimidos” e “explorados”. É
uma geração tão almofadada pela civilização que até quando caía de
bicicleta ao redor da piscina no condomínio era curada com Merthiolate
que não arde.



Que heroísmo, que conquista individual,
que missão e vocação podem ter estas pós-crianças? O melhor é apelar
para abstrações de definições escorregadias como “machismo”, e ter como
causa, como Leitmotiv da primeira fama da vida, uma briguinha
para poder mostrar as pernas e xingar de machista o colégio católico em
que estudam e seus pais pagam uma fortuna para tal.
A geração Z é uma vida a passeio. Uma
vida sem glórias além de conflitos tão profundos, existenciais e
exigentes quanto os diálogos de Malhação. É apenas busca por prazer, sem
ter nada com que se preocupar. Uma êta vida besta, meu Deus, que trata o hedonismo, o jardim de Epicuro e a banalidade como questão mais urgente da vida e da realidade.
É uma vida de luxo e conforto nunca
antes visto na história mundial, mas que precisa se escorar em bodes
expiatórios como chamar de “imposição machista da sociedade patriarcal”
a proibição de shortinhos curtos num ambiente escolar. Ou tanta
macaqueação com “minorias” como transexuais (que não representam 1% da
população). As escolas sem merenda, novamente, só merecem atenção quando
forem geridas por adversários do PSOL.



A escola dos shortinhos é aquela
caríssima, diferente das estatais caindo aos pedaços. É a escola onde
estas filhas da elite estão por preparação para uma vida mais
confortável ainda, como futuras advogadas, médicas, economistas. Nenhuma
profissão com o “direito” de se vestir “como quiser”. A única profissão
em que isto é liberado não é exatamente o sonho de nenhuma delas.



Tudo o que as abstrações do PSOL
compradas pela geração Z (como mostra a Revolta do Shortinho,
rigorosamente indiscerníveis dos conflitos profundos do elenco de
Malhação) conseguem fazer é transformar uma birra adolescente, um
detalhe chato da vida, numa discussão bizantina sobre “não se julgar o
caráter pela roupa” ou as velhas e nonagenárias analogias com estupro.



A geração Z é a geração que ficou mais
fanática do que nossas vovós. Com a proposta de “respeito”, só quer
impor hedonismo oco de significado além de firula adolescente. Com a
proposta de “diversidade”, só quer que todos pensem igualmente, sem
discordância para não “ofender”. Com a proposta de “progresso”, só
destrói tudo o que garante seu conforto em troca de um prazerzinho
momentâneo, sem nunca atentar para o quanto fazem os pais chorarem no
banho enquanto se tornam pessoas sem futuro.



 Pior: ao crer ser revoltada e
futurista, apenas repete um discurso comodista e mais cafona do que uma
pochete. Ao crer provocar polêmica e discussão, apenas ativa tédio e
bocejos. É a reprise do Mocotó.

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